Romeu Bessa transforma telhas coloniais em arte
Obras do artista mineiro Romeu Bessa, 58 anos, estão entre os destaques da 5ª Temporada de Exposições do Museu de Arte de Blumenau (MAB). Natural de Belo Horizonte, onde vive e trabalha, o artista foi um dos selecionados para participar do 11º Salão Elke Hering e agora retorna a Blumenau trazendo a instalação/pintura "Das telhas abaixo". A última mostra deste ano reúne trabalhos de seis artistas nas salas da Fundação Cultural (Rua XV de Novembro, 161, Centro). As visitas podem ser feitas de terça-feira a domingo, das 10h às 16h, sempre com entrada gratuita.
A instalação de Romeu Bessa é composta por um conjunto de 240 telhas coloniais típicas das cidades históricas de Minas Gerais e de outras regiões do Brasil e pintadas, pelo artista, com tinta a óleo. Essas telhas são marcadas por sua exposição ao tempo e por seu uso no espaço real, arquitetônico, mas nesse projeto elas são usadas para ativar a galeria como espaço virtual, pictórico.
A inspiração
A instalação Das telhas abaixo é inspirada na situação vivida pela família do artista a partir do Golpe Militar de 1964, quando a Ditadura promoveu sistematicamente a perseguição política e a intimidação de qualquer tipo de resistência democrática. Seus pais eram professores universitários na Fafich-UFMG, foco de resistência à Ditadura. Em 1966, seu pai foi eleito diretor da faculdade e mesmo após a publicação do AI-5 em 1968, que dava ao governo o poder de cassar e aposentar compulsoriamente funcionários públicos e professores, sempre se posicionou abertamente contra a Ditadura. Por isso, a família vivia num ambiente de medo devido às arbitrariedades cometidas pelo governo militar. A casa era constantemente vigiada por policiais à paisana.
A última folha dos cadernos escolares continha uma lista de nomes e números de telefones. Os primeiros nomes eram de advogados que conheciam a situação, seguido de nomes e números de familiares. Num certo momento, seu pai desapareceu. Sua mãe desconversava sobre o que estava acontecendo. Depois de algumas semanas, seu pai voltou e passou a dizer que ia decorar poemas para, caso fosse preso, poder se alimentar de coisas belas, enquanto estivesse na prisão.
Recentemente, Romeu descobriu que seu pai havia se escondido numa casinha de pau-a-pique na fazenda da família, no interior de Minas Gerais. Ele passou um mês trancado nessa casinha; o encarregado vigiava a estrada de terra, trilhas e pastos do entorno. Em 1969, seu pai foi aposentado com base no AI-5. A vida da família ficou marcada para sempre. "Nunca soube quais poemas foram escolhidos por meu pai, mas ao pensar em sua estratégia de sobrevivência pela poesia, tenho a convicção renovada de que somente pelo atravessamento da arte é possível suportar e revisitar os lugares obscuros da memória. Arte que me permite reinventar a vida, criando um sentido de lugar, das telhas abaixo", comenta o artista.
Serviço
5ª Temporada de Exposições no MAB
Visitação: até 10 de fevereiro de 2016. De terça-feira a domingo, das 10h às 16h
Visitas mediadas podem ser marcadas pelo telefone (47) 3381-6176
Entrada franca
Site: http://museudeartedeblumenau.blogspot.com.br
Assessor de Comunicação: Sérgio Antonello
